Voo atrasado

Seu voo atrasou?A conta corre desde a primeira hora — e ela é da companhia.

A Resolução ANAC nº 400 mede o atraso em horas e vai aumentando o que a companhia deve ao passageiro conforme a espera. Passadas quatro horas, o atraso deixa de ser só espera: você pode exigir reacomodação, reembolso integral ou a realização do trajeto por outro meio.

Mariela Celestino de Oliveira Gratz Advogada — OAB/ES 14.594 · Celestino Advogados, Vitória/ES

Terminal de aeroporto ao entardecer, com a via de embarque vazia

Quem está no aeroporto com o voo atrasado quase sempre faz a mesma pergunta: tenho direito a alguma coisa? A resposta curta é que sim, e desde a primeira hora — mas o que você tem direito a receber muda conforme o tempo passa, e há um marco, o das quatro horas, que quase ninguém conhece e que muda a situação por completo.

A escada do atraso começa em uma hora

A assistência material prevista no art. 27 da Resolução ANAC nº 400 é cumulativa e progressiva, contada a partir do horário original de partida. Ela não depende de pedido, não depende do motivo do atraso e não é cortesia da companhia: é obrigação.

  1. A partir de 1 hora — meios de comunicação: internet, telefone, o que permita avisar quem espera por você. Parece pouco, mas é o marco que faz a contagem começar.
  2. A partir de 2 horas — alimentação adequada ao horário, por voucher, refeição ou lanche. Se você comprou porque nada foi oferecido, guarde o recibo.
  3. A partir de 4 horas — hospedagem em caso de pernoite e o traslado de ida e volta ao aeroporto.

Passadas quatro horas, você não precisa continuar esperando

É o ponto que mais surpreende quem chega até mim. Ultrapassadas quatro horas do horário previsto de partida, o art. 21 dá ao passageiro as mesmas alternativas do voo cancelado — e quem escolhe é ele, não a companhia:

Continuar sentado no portão esperando o voo sair é uma escolha sua, não uma imposição — desde que a companhia tenha apresentado as três alternativas. Se não apresentou, deixou de cumprir a norma.

Se o atraso fez perder a conexão, o caso muda de figura

Um atraso de uma hora, sozinho, costuma ser aborrecimento. O mesmo atraso de uma hora que faz você chegar ao portão do segundo trecho e ser impedido de embarcar é outra história inteira: você se apresentou e não foi transportado.

Quando o trecho seguinte é da mesma companhia ou foi vendido no mesmo bilhete, o dever de levar você ao destino contratado continua de pé. E impedir o embarque de quem se apresentou tem regra própria, com compensação em valor fixado por norma — o que está explicado na página sobre embarque negado.

É também na conexão perdida que o prejuízo se acumula: pernoite não previsto, diária de hotel perdida no destino, compromisso desfeito, passeio pago e não realizado. É a soma disso que constrói o caso.

Nem todo atraso dá causa a indenização

Esta página não serve para dizer que todo atraso rende. Serve para você entender o seu — e há situações em que a resposta honesta é que não há muito a discutir.

Uma hora de espera, o voo saiu, você chegou ao destino e nada se perdeu por causa disso: em regra, fica no campo do aborrecimento, ainda que a assistência daquela hora fosse devida. Já a espera longa sem assistência, o pernoite não assistido, a conexão perdida, o compromisso que não se remarca e o gasto pago do próprio bolso são o que torna um caso forte.

O tamanho do atraso não mede o tamanho do dano. O que se perdeu por causa dele, sim.

A assistência recebida não encerra o caso

Ter recebido o voucher de lanche e o hotel não repara o que o atraso custou. A assistência material é o mínimo devido enquanto você espera — ela não é indenização, e uma não substitui a outra.

Os danos materiais são o que o atraso custou de verdade: diária de hotel perdida no destino, transfer não usado, passeio pago e não realizado, compromisso remarcado, e tudo o que você custeou porque a companhia não ofereceu. Quanto aos danos morais, os tribunais brasileiros reconhecem que, em casos de atraso, o transtorno pode ultrapassar o mero aborrecimento e configurar dano indenizável — mas o reconhecimento e o valor dependem sempre das circunstâncias concretas, e são fixados pelo juízo, caso a caso.

Nenhuma página consegue dizer quanto vale um caso, e quem disser não está sendo honesto. O que dá para dizer é o contrário, e é útil: o voucher de lanche não mede o que a espera custou a você.

O que fazer ainda no aeroporto

A prova de um atraso se produz no lugar e na hora. Cinco minutos ali valem mais que qualquer reconstrução depois.

  1. Fotografe o painel com o horário visível. É a prova mais simples e mais forte que existe: o horário previsto e o real, lado a lado. Repita a foto se o atraso for aumentando.
  2. Peça o motivo do atraso por escrito. Um e-mail, um protocolo ou a mensagem no aplicativo já serve — e o motivo alegado importa.
  3. Passadas 4 horas, exija as alternativas. Se ofereceram só continuar esperando, registre isso.
  4. Anote nomes e horários. Quem atendeu, o que foi oferecido, a que horas. Uma nota no celular basta.
  5. Não assine quitação sem ler. Voucher, crédito, dinheiro ou upgrade: peça para ver por escrito a que título é, e fotografe antes de assinar.
  6. Guarde todo recibo. Refeição, transporte, hotel, ligação — inclusive o que você pagou do próprio bolso.

O que ajuda no seu caso

Não é preciso ter tudo. Parte pode ser obtida depois.

Perguntas frequentes

Tenho direito a indenização por atraso de voo?

Depende do que o atraso causou a você. O que a norma garante a todo passageiro é a assistência material conforme a espera e, passadas 4 horas, a escolha entre reacomodação, reembolso integral e outro meio de transporte — isso não se discute. A indenização é outra coisa: repara o prejuízo concreto, e depende de haver prejuízo.

A partir de quantas horas eu tenho direito a alguma coisa?

Desde a primeira. A partir de 1 hora, meios de comunicação; a partir de 2 horas, alimentação; a partir de 4 horas, hospedagem e traslado em caso de pernoite. E as 4 horas são o marco mais importante: é a partir delas que você pode exigir reacomodação ou o reembolso integral, em vez de continuar esperando.

Recebi voucher de lanche e hotel. Ainda posso discutir alguma coisa?

Pode. A assistência material é o mínimo devido enquanto você espera, e não é reparação do que o atraso custou. O que importa é ver a que título cada coisa foi entregue e o que você assinou ao receber.

A companhia alegou mau tempo. Isso tira o meu direito?

Não automaticamente. A assistência material é devida independentemente da causa — mau tempo não dispensa a companhia de alimentar e hospedar o passageiro. Quanto à indenização, o que se discute é se a causa era mesmo inevitável e se a companhia fez a sua parte depois que ela ocorreu. Por isso vale pedir o motivo por escrito.

Quanto tempo depois da viagem ainda posso buscar meus direitos?

Voo dentro do Brasil: 5 anos, tanto para os gastos quanto para os danos morais (art. 27 do Código de Defesa do Consumidor).

Voo internacional: 2 anos para os gastos materiais (art. 35 da Convenção de Montreal) e 5 anos para os danos morais — os tribunais superiores entendem que os acordos internacionais limitam apenas a parte material.

Se o seu voo foi há mais de dois anos, ainda pode valer a pena conversar: parte do pedido pode continuar em prazo.

Meu voo era internacional. Muda alguma coisa?

Muda. A forma de apurar os prejuízos e os prazos seguem regras próprias, definidas em acordos internacionais — e a escala ou conexão em outro país pode alterar qual norma se aplica ao trecho. Vale trazer o itinerário completo para a conversa.

Preciso ir ao escritório?

Não. Do primeiro contato ao envio de documentos, tudo é feito pelo celular. A única etapa em que você participa ao vivo é a audiência de conciliação, e ela também é por videochamada.

Conte como foi o atraso

Descreva a sua situação pelo WhatsApp e entenda, sem compromisso, quais direitos se aplicam a ela. Quem responde sou eu.

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